A música como refúgio e o silêncio como companheiro.

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Desfile da Unidos do Colombo





Grande expectativa e pequena participação popular foram alguns dos detalhes que marcaram a final de contas 2015!

A Unidos do Colombo entrou na passarela acreditando no título, embora o samba enredo não soasse muito original e não tenha explodido na avenida. Tudo mais ou menos como no Carnaval passado. Mesmo assim os componentes estavam empolgados com a receptividade do público amistoso, embalados pelo trabalho cenográfico do carnavalesco Gava.

A agremiação desfilou um enredo repleto de contrastes e gerou muitas controvérsias, até mesmo ressalvas. Mesclou as origens dos recursos do fundo social, iluminado pelo esplendor das centrais elétricas, com reflexos nos tributos distribuídos a cortes e municipalidades, e nos cálculos da educação, que não atinge mais o mínimo do Texto Magno, ao balé extravagante das alterações orçamentárias por excesso fantasioso de arrecadação. 

A bateria teve dificuldade para entrar no recuo e apresentou descompassos que, alegremente, não foram considerados pelos compreensivos jurados – o júri popular alegou que alguns membros oficiais poderiam se deixar influenciar pela amizade de longa data com os compositores da agremiação, mas até o fechamento desta matéria, os compositores e jurados não haviam retornado às ligações.

Os carnavalescos Colombo & Gavazonni não precisaram usar muita criatividade para manter a ilusão proposta durante o desfile. Foram muitos minutos de pura magia, apesar de o carro abre-alas apresentar problemas de iluminação por toda a pista, e dar muito trabalho ao pessoal do fundo, que o empurrou na base da doação mesmo.

A comissão de frente era cintilante: uma iluminação primorosa, com integrantes semi-nus simbolizando a educação vilipendiada pela falta de recursos. Todos com pena, muita pena!

Em um tripé, à frente do carro abre-alas, a figura do intrépido governador, muito bem ornado, envolto nas sombras de bicicletas que desapareciam - a alegoria foi mantida em segredo no barracão durante todo o ano e o truque ensaiado a portas fechadas. Foram muitos comentários nas arquibancadas sobre a origem da mágica. Informações não confirmadas deram conta de que foi celebrado um convênio com a Escola de Samba Unidos da Tijuca, que inovou no Carnaval carioca de 2011, ao levar para a Marquês de Sapucaí um truque de ilusionismo conhecido como “Perderam-se as cabeças!”.

Realmente, o desfile da Unidos do Colombo em 2015 foi padrão grupo especial. O estilo inconfundível dos carnavalescos surpreendeu nas alegorias que representavam a crise brasileira do Oiapoque ao Chuí: um desfile de figuras reais em filas, greves e outros descasos Brasil afora, foi projetado sobre as cabeças dos presentes, com a intenção de encantá-los com o “estado de graça” alcançado por Santa Catarina em meio à adversidade recessiva. Alguns momentos lembraram Joãozinho Trinta e o seu “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia", que levou para o sambódromo do Rio de Janeiro, carros e alas repletos de lixo, em 1989.

Fantasias desprovidas de qualquer sofisticação trouxeram a velha guarda da educação, os inativos, no cálculo do percentual mínimo constitucional do ensino - uma referência à derrocada do artigo 212 da Carta Magna esculachada em muitos momentos do desfile.

O brilhante trabalho alegórico também se fez presente nas esplêndidas alterações orçamentárias por excesso de arrecadação sem excessos. Um lúdico jogo de imaginação que impressionou até mesmo os mais experientes foliões.

O casal de mestre sala e porta-bandeira, infelizmente, não estava em harmonia. Desfilou de forma descompassada, evidenciando o desequilíbrio dos movimentos, entradas e saídas que não se coordenavam. A dança foi negativa e tirou pontos da agremiação, sem comprometer, é claro, o resultado final.

O quesito evolução também ficou a desejar. Os carnavalescos usaram diversos artifícios, mas deixaram de fazer a ponte com a realidade, segundo o júri popular. Muito do planejado não pôde ser executado: alegorias emperraram a máquina e não se concretizaram, para desespero de muitos.

O júri popular considerou também que grande parte das fantasias estavam carregadas demais, com muitas informações e de difícil assimilação. Esperava-se um desfile com mais transparências. Gava já se adiantou, “deixa com a gente, no ano que vem será diferente”, afirmou o carnavalesco. Um de seus assistentes vazou que esse será o refrão do samba do próximo ano, o que agradou alguns apreciadores do Carnaval.

Chamaram atenção ainda: as alas destinadas às APAE, seus recursos dançaram muito bem; a ala da Pesquisa Científica, que também sambou bonito; e a ala do Fundam, esta pela qualidade controversa das fantasias que pisaram no asfalto. Outras fantasias exuberantes integraram a ala dos Estudantes Sem Fundos e Sem Assistências. Houve desequilíbrio na ala Estimativas Compatíveis. Acompanhando a tendência, a ala dos Planejamentos foi toda trabalhada na distorção e desarmonia.

A última ala fez alusão ao futuro da agremiação, à empatia entre os cérebros iluminados que trabalham para um objetivo comum, e às matrizes de projetos de cooperação. Sedas de tons sobre tons foram rasgadas no final do desfile. 

O público deixou a passarela com a sensação de que a agremiação levou para a casa um grande compromisso para o próximo ano, e de difícil reversão, dado o endividamento que se acumula nos últimos desfiles e o déficit nas alas do Regime Próprio e do Instituto de Previdência. Mas Carnaval e futebol são caixinhas de surpresa!

Já na dispersão, os integrantes comemoravam a harmonia entre a agremiação e o corpo de jurados, e o título que levaram para a casa das leis. Gava disse que a alegria é contagiante e combustível para o planejamento do próximo desfile, que, na verdade, já começou, e, certamente, será deslumbrante!